segunda-feira, 20 de julho de 2009

20- De Miss Lou Monde.

- Melodies and Desires

Então, ele apareceu. Não brotou do asfalto, como a flor que eu queria, mas veio. Veio dentro de uma sala cinzenta com tijolos amarelos repletos de dor, sala abstrata, impalpável. Embrulhado em sorrisos, comentários elegantes, ele me fez perceber que nossas mãos não precisam se entrelaçar, para estarmos unidos. Nossas almas já entraram em simbiose há tanto... que nem mais sei qual parte de mim segue comigo e qual parte minha vai com ele.


Eu, cética... abandonada em mim, consegui encontrar o amor puro. Aquele, que enleva, faz a alma descansar no perfume mais acalentador e faz os olhos repousarem nas palavras mais exatas. Sim, ele mais escreve do que diz, e isso é absurdamente mais delirante para meus ouvidos do que a genialidade de Vivaldi.

Meus sorrisos, causados por ele, me transfiguram a cara. As gargalhadas, vindas da profundidade da minha garganta, maculam o ar e abusam dos tímpanos dos outros (bluh, bluh, bluh)... mas quer saber, a felicidade é assim mesmo: deformante.

- Filia por sofia

segunda-feira, 15 de junho de 2009

19- Primavera de Botticelli.

Depois de muito andar só encontrei um maldito banco, que impedia os meus pés de tocarem o chão.
Ao meu redor muitas pessoas com assuntos tolos e distantes, às vezes tinha a impressão que elas estavam no fundo de oceano e seus sonzinhos nada agradáveis percorriam toda a imensidão somente pra me tocar e chatear.
As pessoas mais interessantes que eu conheço já tentaram suicídio e são terrivelmente desgostosas com a vida.
Em um dia qualquer eu programei o meu fim. Um fim divido em 4 atos, 3 planejados de forma meticulosa por mim e o último livre, pronto à seguir o percurso das lágrimas que talvez se formariam.

Era uma sexta-feira de Dezembro, o tempo estava estranho e eu tinha acabado de tomar um banho de chuva.
No caminho de casa eu vangloriava os meus últimos passos rumo a um lugar incerto, que soava um tanto quanto onírico e mágico. Seria o fim da dor e das vozes farpadas que se entrelaçavam nas divagações da minha mente insólita.

Sobre uma cadeira eu começo o primeiro ato. De forma metódica eu prendo meu pescoço, ventos Zéfiros tocam em mim e o medo da desistência e da falha me fazem pular ao segundo ato.

Ao contrário do que aconteceu com o banco os meus pés podiam tocar o chão. A altura entre o nó e o chão era curta de mais para pôr fim em tudo e insuficientemente longa para que eu pudesse me reerguer e chorar, sentado na cama, acompanhado do amargo da minha incompetência.

Entre a parede eu tentava me salvar e de uma forma memorável eu pedi ajuda à Deus. Sai de um marasmo agnóstico e me tornei o crente dos crentes nos segundos finais da minha "quase-morte".

Obviamente não teve terceiro ato, eu ainda estava vivo. A morte não quis me levar consigo e a dor continuou brotando entre o meu sangue. Tentei enganá-la com dosagens máximas de hedonismo e psicotrópicos, não deu certo. Posteriormente minha analista me explicou o porquê de eu nunca conseguir fugir da realidade e assim eu prossigo, mentindo pra acordar e fingindo pra viver.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

18-

Só gostaria que o mundo soubesse que meu "assentimentalismo" atingiu o ápice. Acabo de chorar porque a minha jarra de água quebrou, talvez por isso eu não me permitia ter sentimentos por pessoas, já que a pobre jarra me ocupava bastante tempo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

17- Estela tem uma boca como dez dedos e vice-versa. (Parte III)

[...] Passamos a ficar mais tempos juntas. Na verdade tínhamos um relacionamento não muito convencional, afinal, éramos lésbicas, porém todo o medo de uma repreensão tornava os nossos momentos ainda mais mágicos.

Estela dormia na minha casa algumas vezes na semana, tomávamos chá na sacada, conversávamos e estar ao lado dela era um motivo para eu me sentir feliz.

Eu tinha sido admitida na faculdade de artes plásticas e Estela se mudaria para os EUA e estudaria fotografia. Desde sempre eu soube que ela iria embora, eu a perderia e estava prestes a me conformar com toda essa situação. Não era egoísta ao ponto de intervir na sua mudança, ela queria trabalhar com modelos e marcas de roupas, portanto estudar fora do país seria muito melhor para a formação da carreira. Eu ia perder a pessoa que esteve ao meu lado durante momentos memorávais, era como seu fosse o nada até ela me enchergar na multidão desfocada. Estela permaneceria na linearidade trágica da minha vida, tudo que me torna uma pessoa feliz me abandona, portanto ela iria embora como a minha coelha Sissa, meus amigos da pré-escola e meu pai.

Em clima de despedida nossos encontros se sucediam, ao menos me mudaria de cidade e passaria viver sozinha já que a faculdade era em outro estado, talvez fosse sofrer menos, seria uma experiência tão nova que eu me esqueceria de lembrar da garota que me amou ou fingiu amar muito bem, ou seja, mentia a mim mesma que superaria a dor do "adeus".

As conversas na sacada regadas a muito chá de canela alegravam a minha noite, Estela sempre usando aqueles pijamas de cores claras, um tanto quanto infantis, acho que ela tinha esperança de um dia se tornar a menina delicada que aparentava ser quando usava aquelas roupas.

Um dia fomos ao parque, o céu estava cinzento e obviamente só restava nós duas entre as árvores e o pequeno lago, acho que essa era a intenção de Estela ao me levar àquele lugar. Ficamos abraçadas por um tempo, não estava me sentindo bem, eu não entendia a razão de estarmos ali, iria chover, teriamos que sair correndo e na noite anterior eu tinha tido febre. Depois de momentos de interrogações e irritação interna ouço a voz de Estela, fraca, ela temia as palavras que saiam da sua boca, as palavras formaram frases, um silêncio permaneceu e então pude acreditar no que tinha ouvido, ela acabara de me convidar para me mudar pros EUA com ela. Senti muito medo, a dúvida sobre ela realmente me amar tinha acabado, isso me afugentava, ela me queria ao seu lado e eu estava com medo de ser feliz.
[...]

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

16- Estágios de um desenvolvimento excêntrico, individualista e vulgar.

Cheguei a uma conclusão, na verdade eu não cheguei a lugar algum, a questão é: Eu não me socializo, antes eu não me socializava em eventos héteros, mas agora eu só me socializo em casa, no meu quarto, comigo e eu mesmo.

Não sei e nem quero discorrer sobre.
Fingir, todos sabem que essa é a minha maior dádiva, enquanto eu ria, fazia piadas e aparentava estar terrivelmente feliz eu ia sendo corroído por dentro, a mesa do bar ia me consumindo, aos poucos, bem lentamente.
Água sempre serve de consolo em momentos como esse. Álcool jamais! Se em sã consciência eu estava prestes a chocar toda uma mesa de convidados imagine bêbado. Na verdade eu não fico bêbado, o álcool só serve de desculpa para reparar os erros da noite passada, sempre usei essa tática e ela não serve mais.
Tudo estava mais irritante que o normal. Até pessoas que eu tolero por pura piedade conseguiram me tirar do sério.
Fuja! Eu sempre fugi dessas situações, formular textos na cabeça sempre eram a solução mas, é, não funcionava e o pouquinho do meu "eu" verdadeiro estava indo embora com a mesa, com os comentários, com a inveja e com as pessoas imbecís, previsíveis, felizes, etc...
Não me sentia bem, fingia alegria pra não chorar e a ilusão de uma noite hedonista foi embora como em muitas outras ocasiões.

Morri hoje, como morri em outros dias e como um dia morrerei.
Obrigado Dayane por ter me apresentado a vida como ela é: uma droga.

Termino no fundo do poço no meu estar-interior.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

15- Confesso que:

- Tenho muitos amigos e vou me cansando de cada um gradativamente até odiar todos.
- Fiquei preso por mais de 2 horas em um elevador e tive uma crise nervosa.
- Assistia Xuxa Park e torcia para as meninas.
- Bati na múmia do Hopi Hari.
- Desde criança eu era vagabundo e falso.
- Não sei jogar truco, não faço questão de aprender e detesto quem joga.
- Fumo mas não sei tragar.
- Já tive uma namorada virtual e acreditava plenamente que nós nos amávamos.
- Joguei a lista de chamada pela janela acreditando ser uma cola.
- Finjo estar bêbado e/ou drogado.
- Comprei livros que nunca li, filmes que nunca assisti e cadernos que nunca escrevi.
- Escondia no banheiro para não assistir as missas do meu colégio.
- Tenho medo de me confessar.
- Namorei por quase 1 ano e só trai 3 vezes.
- Nunca fiquei de porre.
- Me escondia dentro do guarda-roupa quando estava com raiva da minha mãe.
- Fui "mandado" para fora de casa com menos de 10 anos de idade.
- Já fui fake, me descobriram e me chingaram no orkut.
- Quase tive de me prostituir pra um motorista de ônibus porquê precisava de 2 reais para voltar pra casa.
- Fui em boate gay e decidi que seria gogo-boy.
- Ia no cinema só pra chorar.
- Já fui odiado por toda uma sala de aula.
- Não sei jogar futebol e não sei distinguir cores de time.
- Tenho medo de palhaços e circos.
- Colocava trechos de núsica no subnick do msn e achava "cool".
- Já fiz sexo virtual.
- Tive um relacionamento de 4 meses e não beijava na boca porquê achava pouco "profissional".
- Ensaio a minha vida em frente ao espelho.
- Acredito que fui uma meretriz em vidas passadas.
- Quebrei a perna e o vidro do box do banheiro dançando no chuveiro.
- Não tinha amigos até a 8ª série.
- Choro toda vez que assisto Monstros SA.
- Já tive amores platônicos sem ao menos conversar.
- Me projeto em personagens de filmes, livros, séries e oscilo meu temperamento como eles.
- Meu sonho de criança era participar da Chiquititas.

Essas são as verdades que quase me corroem por dentro.

domingo, 4 de janeiro de 2009

14- Ao meu velho amigo.

Enquanto todos amigos da minha sala eram loucos pra se tornarem adultos eu queria continuar sendo uma criança.
Todos os anos a data chega, é desconfortante. Não vejo prazer em atender aos telefonemas, em sair pra comemorar e até mesmo ganhar presentes.
Não, hoje não é o meu aniversário, felizmente. Mas sabe, você passa por uns momentos epifânicos, a realidade vem a tona e você necessita da mudança, mas o que mudar para não envelhecer? Se matar? É, essa é uma saída, ótima por sinal.
É tão triste envelhecer. Eu perguntei à minha vó materna o que ela pensava sobre se tornar velho, ela disse que não é ruim, que todos seus amigos envelhecem juntos e, acho que esses argumentos só servem de consolo barato pra confortar os anos, os dias, as horas e os minutos que passam enquanto você vai perdendo um pouquinho de você.
A minha outra avó lamenta ao nada. Ela não é o tipo que fica reclamando, mas em nossas conversas percebo claramente o quão deprimente é estar naquela situação, vejo no olhar dela a insatisfação e essa história de "melhor idade" é uma tolice, espero que eu morra antes de atingir essa nova vertente da depressão, solidão, tristeza e qualquer outro nome devido que possa ser ultilizado como referência a essa quase enfermidade.
Carregar experiências? Lições de vida? Me desculpa, quando se é um ancião mal pode-se carregar um pacote de arroz.
Não é novidade que eu não constituirei uma família, portanto não terei filhos e netos para me recordar daquele dia maravilhoso na fazenda, da comida da mamãe, da viagem ao Nordeste que na realidade foi uma droga só que com o tempo adquiriu um sabor maravilhoso.
Sabe onde eu vou chegar com essas divagações? Em lugar nenhum. Talvez isso seja o pior, você pode fazer tudo, tomar remédios para as rugas, hormônios, passar barro na cara, tomar água milagrosa que não adiantará.
O meu pai está na crise da meia-idade. Não sei o que pensar, quando conversamos ele ficou rindo, parece que ele está se divertindo, talvez seja uma forma de mentir e fugir da pior das verdades.
O que ainda me conforta é que eu acredito que morrerei antes da tal crise pós os 45 , espero que eu morra em julho, julho é o meu mês favorito. Os ventos intensos tocam a janela e a crianças parecem felizes devido às férias. A vida não será tão ingrata ao ponto de me levar em novembro ou dezembro, a chuva desses meses trazem más vibraçãos à minha vida e certamente acabariam com o meu funeral, a chuva estaria tão forte que na hora de me enterrarem só estaria eu e o coveiro, a meia dúzia de amigos, parentes e inimigos dariam seus tchauzinhos e últimas lágrimas forçadas da marquise do cemitério a alguns muitos metros de distância.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

13- Estela tem uma boca como dez dedos e vice-versa. (Parte II)

[...] Perdi o controle da situação. Estávamos nos beijando no meio do parque. Ver o olhar de Estela por trás do cabelo encharcado me fascinou, me sentia tão dela e ela tão minha, talvez fossemos uma só.
O seu leve toque na minha nuca me causava arrepios. Às vezes caia em sã consciência e percebia o que realmente estava fazendo, tentava me livrar, porém já estava envolvida pelos seus braços.
Aquele beijo, antes seco e vazio agora era regado por algo maior, capaz de me desligar do mundo. Tenho que admitir, não queria que aquele momento tivesse fim. Eu realmente estava em uma montanha-russa, mas não acompanhada por uma melancia, o que adocicava o medo e a aventura era a boca de Estela.

Como era mágico um beijo feminino. Me transportei à um estágio de perfeição, realização, era como se eu tocasse aquilo que desejei por toda uma vida. Sentia sua língua passando sobre a minha, ouvia seus gemidos, o calor que passava corpo a corpo. Eu estava tão longe, não pensava mais por mim, eu apenas seguia o ritmo de Estela, iria até onde ela quisesse e não me arrependeria disso.

Saímos do parque de mãos dadas. Andávamos pelas ruas em movimentos desengonçados, riamos do nada, era como se nada existisse. Era como se o mundo tivesse parado e as pessoas tivessem desaparecido. Eu senti a liberdade, senti como se fosse livre, a princípio a "liberdade" parece uma utopia, um sonho, a maior das ilusões, mas acredite, a liberdade existe nas ações mais singelas. Eu estava livre, estava livre com Estela, sentia que tudo era mais que um teatro e uma encenação, aquilo era a realidade e isso me encantava.

Depois de andarmos por um tempo Estela se despediu e foi embora, enquanto ela caminhava pude admirar aquele ser se tornando cada vez menor e menor até desaparecer entre as ruas e carros. A aflição veio, nós ainda não haviamos conversado sobre o primeiro beijo. Os acontecimentos iam se desencadeando e perdia-se do limite, ia voando pra bem longe e deixava, nós duas, quase irracionais e por isso tinha medo que Estela me deixasse, talvez ela não quisesse estar comigo e queria se livrar de toda essa situação, tudo aconteceu e pronto, momento e nada mais.

Cheguei em casa ainda eufórica. Estava agitada, molhada e apaixonada. Minha mãe não estava, desde que se separou do meu padrasto ela afundava as mágoas em uma Igreja Evangélica perto de casa. Me olhei no espelho, o que eu via era um menina boba, frágil e com olhar mais encantado do mundo, era como se a felicidade de todos estivessem depositadas só em mim, me sentia leve, se quisesse até poderia voar, mas o que eu mais queria era continuar com todo aquele sentimentalismo que antes e irritava.

[...]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

12- Estela tem uma boca como dez dedos e vice-versa. (Parte I)

Estela foi minha primeira paixão.
Ela era a típica menina que se fazia de durona e tinha respeito e admiração de todos os garotos da sala.
Sempre acreditei que ela tinha um relacionamento com cada menino em particular, tudo muito secreto, trocas de olhares na entrada do banheiro, insinuações nas aulas de arte e sexo depois do colégio.
De certa forma eu queria ser um pedaço dela, queria o respeito. Nem meu irmão de 5 anos me respeitava, imagine toda uma sala, ou melhor, imagine todos os homens no auge da puberdade que sonhavam um dia tê-la controlando seus pensamentos e suas falas repletas de desejos para não irritá-la, isso por si só já bastava para eu também ter o respeito e temer um dia ser surpreendida por ela.

Em uma festa qualquer a encontrei bêbada.
Ela lutava pra se equilibar sobre uma almofada rodeada por cacos de vidros. Aquela situação por si só me encantou, a durona estava fragilizada com a ausência de seus cães excitados. Em passos leves e com o olhar desviado de "Estela, a cômica" fui me aproximando e a salvei dos cacos sedentos por sangue. Não esperava nenhuma gratidão, pelo contrário, esperava que meus passos e minha ação rica em compaixão e digna de náuseas não fossem lembradas, só queria ser uma estranha que em um momento epifânico se rendeu a ajudar ao próximo.

Se pudesse teria apagado o seu beijo da memória. Ela me olhou com um olhar tão inferior e me surpreendeu com um beijo, um beijo vazio, rápido e seco, mas um beijo lésbico em uma festa, foi amedontrador, de imediato sai, abondonei-a na esperança que deixaria para trás a menina fragilizada em que acabava de me tornar. Agora eu quem estava prestes a deslizar pela almofada e cair sobre o vidro, certamente nenhum tolo se aventuraria em me ajudar, já imaginava toda as meninas católicas e semi-virgens da minha sala fazendo de tudo para me entregar aos cacos, tudo estava perdido!

Tentei apagar, rasgar, atear fogo naquela segunda-feira de outubro, não queria ir ao colégio. Tinha mais medo de mim do que das pessoas que apontariam o dedo à garota lésbica e pevertida, eu. Provavelmente Estela contara aos seus amigos machos que eu a atacara enquanto bêbada, a sala toda estaria paralizada ao saber o quão suja era eu.

Ao chegar na sala tudo me parecia normal, as meninas estavam num canto comentando sobre as presas de sábado, e eu, como sempre, tinha que suportar uma garota que acreditava ser minha amiga, ela era insuportável. Pouco tempo depois Estela chegou e se sentou ao meu lado, ato admirável, primeira vez em dois anos que ela se senta mais ao meio da sala, os garotos do fundo se sentiram abandonados e deram um jeito ficar o mais próximo de nós duas para manterem o ar de submissão e respeito à ela.

Primeira aula, sinceramente não faço idéia do que se tratava, minha mente vagava enquanto florescia em mim uma nova sensação. Era diferente de tudo que eu já tinha experimentado, era algo doce, um sabor adocicado acompanhado do frio na barriga característico de grandes saltos. No meio da aula ela me ofereceu chocolates, eu disse um "obrigado" acompanhado de uma afeição feliz e encantada, era uma expressão nova, acho que copiei de algum filme barato e romântico, mas mesmo assim tornei o agradecimento algo verdadeiro, talvez a palavra mais verdadeira que eu já dissera após aprender a falar papai e mamãe.

Durante toda semana ela sentou ao meu lado. Tínhamos assuntos normais porém distantes da realidade da minha sala. Não falávamos de homens, não éramos o tipo de garotas que necessitavam de ter sempre um grande pênis sedento a espera. Ela me contou sobre a sua vida, falamos de lugares, vícios, sentimentos, mas não falamos do nosso beijo. O sentimento estranho se tornava mais forte, às vezes tinha a impressão de estar em uma montanha-russa enquanto comia melancia, era quase um prazer eterno e intocável.

No sábado, pela manhã, teriamos aula de artes no cinema da cidade. Era algo sobre a evolução cinematográfica e suas mudanças na sociedade, não sei ao certo, estava muito ocupada pensando em Estela, ela me atraía, era algo inexplicável, a grande menina da mamãe estava se tornando lésbica, que digno! Convenci Estela a ir à aula, não sei ao certo o porquê de quere-la tanto ao meu lado, sua presença me atrapalharia e eu não prestaria atenção aos vídeos, porém, se ela não fosse ficaria procurando sua imagem na minha mente, seria pior.

Estava em um maldito shopping às 8 horas da manhã. O clima estava péssimo, conseguia ver no rosto de cada ser o desânimo para a tal aula de cinema, no fundo todos queriam sair correndo aos berros e voltar para o conforto de seus lares. Depois de um certo tempo vi ao longe a imagem de Estela, não tinha reparado ainda a forma que ela caminhava, era tão leve e hipnotizante. Surpreendentemente ela não me parecia irritada e arrependida por ter acordado cedo, ela estava tão cheia de si, me cumprimentou de uma forma extremamente animada e me puxou por dentre o shopping até que percebi que não estávamos naquele recinto tristonho, ela me levara para um parque logo ao fundo. Nos sentamos em um lugar qualquer, tivemos conversas breves e começamos a ouvir música. Tinha consciência de que tanto eu como ela buscávamos algo novo e inexplorado. Começou a cair umas gotas d'água do céu e com um movimento não muito delicado tentei me proteger entre a parede e acabei ficando frente a frente àquela frágil mulher. Ela me impregnava com aquele olhar intenso, ao mesmo tempo que ela me olhava fixadamente ela retirava os tais fones do ouvido, por fim me aproximei mais e a beijei.
[...]

domingo, 21 de dezembro de 2008

11- Ensaio para a ceia de Natal.

A história é a mesma.
Seus tios já estão bêbados, você está com sono, as piadas parecem imutáveis mesmo depois de décadas e o celular da sua prima piriguete não para de tocar, você já está cogitando a idéia dela fazer um programa no dia de Natal. Depois da 3ª ligação você está de saco cheio e não agüenta mais ouvir Big girls don´t cry, Candy shop, Créu, Dança do quadrado, enfim, não agüenta mais ouvir a música de toque do celular, até que sua tia, sua tia genial e contrangedora lhe pergunta:

__ Como vão as namoradas? Pegando todas danadinho?
__ A tia, estou pegando um menino lindo do cursinho, ele usa óculos e tem umas pernas fantásticas, nem te conto o melhor de tudo, ele me faz ter orgasmos múltiplos... Ai!

Sua avó sofre um Avc, sua mãe se suicida, sua tia te esfaqueia e seus primos bombadinhos insistem em espancar o defunto (você) e a noite termina em uma confraternização linda, harmoniosa e dentro das tradições religiosas.